Resenhas sobre os espetáculos

Cabaré da Mafalda brinca com lirismos femininos e estruturas familiares

Nos dias 15 e 29 de maio o nosso Teatro A Céu Aberto recebeu o irreverente e intimista Cabaré da Mafalda. A deliciosa proposição de Andrea Macera e da Cia da Mafalda reforça-se com o apoio de uma competente equipe que se reveza em números cômicos e pateticamente poéticos. Por mais que Mafalda dê o seu nome ao Cabaré, as oportunidades são dadas a todos os outros artistas presentes na lona desse simples e belo Cabaré Familiar. E não entenda a palavra familiar dotada de nenhuma moralidade e sim de peculiaridades positivas e negativas que compõem qualquer estrutura familiar. A família de Andrea Macera está realmente em cena. E por mais que essa estrutura composta por uma mãe (a dinâmica e versátil palhaça Mafalda), um pai (tecnicamente complementar a figura da Mafalda e das amarras que ligam os números do espetáculo) e um casal de filhos, sendo um menino (cheio de potências cômicas a serem exploradas, mas aqui já presentes) e uma menina (de delicada beleza e que sabe executar de maneira refinada o papel da adolescente indisposta).

Por mais que sua família esteja presente na centralidade do evento, Mafalda não deixa de propor novas estruturas familiares para seu Cabaré, dando extrema importância estética a dupla de palhaços trapaceiros e carismáticos: Maçaneta e Guaianazes. E são esses dois palhaços que colocam no picadeiro números que brincam com temas da sexualidade e das questões de gênero. Mesmo que de maneira sutil e cômica é bom ver um palhaço “botar a cara no sol” ou para os mais antigos “soltar a franga” durante um número de dublagem da Clássica “New York – New York”.  

Configura-se como o momento auge do espetáculo, onde a "mandona" Mafalda demonstra admirar algo e alguém, a presença das ilustres convidadas especiais de cada um dos dois dias do cabaré a dúbia palhaça Jasmim (Lily Curcio) e a “Felliniana” Spirulina (Silvia Leblon). Ambas marcam presença como a visita de uma velha senhora bufânica, prontas para trazerem um sábia e equilibrada mistura lírica entre: humor e sagacidade. Em Spirulina a música narrativa dá conta de uma infanta tragédia de uma boneca de papel; nos fazendo rir e chorar dentro do mesmo compasso. Já a figura de Jasmim, tem por nome flor e demonstra brutalidade poética com a criação de uma figura doce e forte. Com sua sanfoninha constrói um momento de suspensão onde o público deixa a euforia de lado e aprende a rir das pequenas coisas. É nesse momento que o Cabaré da Mafalda presenteia o público com a presença de duas pungentes artistas de forte trajetória artística e que, em seus poucos minutos de cena mostram transgressão das possibilidades da comicidade feminina.

É com a mistura de uma família convencional e convidados estapafúrdios que Mafalda, através da ruptura de sua estrutura própria familiar, redimensiona uma caótica e atrapalhada nova família da Mafalda para entreter o distinto público presente durante esse delírio patético e poético dessas duas tardes de patifarias acontecidas no Sítio Cultural Alsácia.


Mafalda é a mãe que propõe. Uma mãe, que se desdobra em diversas funções e que o tempo todo tenta dizer aos seus filhos que no picadeiro ela não é mãe e sim a Rainha. Que nada! Mafalda é só uma palhaça que sabe que o show tem de continuar: com ou sem certezas, o artista tem que fazer e dizer a que veio! Mafalda narra e diz o que e quem deve entrar em cena e convence a plateia de que o número, mesmo que executado de maneira estapafúrdia, foi maravilhoso! E mesmo não sendo maravilhoso, nos convence disso. Pois na criação de Mafalda, Andrea Macera expõe uma segurança como atriz e palhaça louvável de se ver. E cada integrante, a sua maneira, executa sua possibilidade de subversão dentro de um cabaré familiar. O Cabaré da Mafalda e sua simplicidade devolve ao público, sem grandes espetacularizações, a simples sensação do encontrar-se para sorrir. O estado caseiro e aconchegante proposto por Mafalda é uma armadilha que convida o público a rir de si e quebrar seus próprios paradigmas. E isso tudo faz de Andrea Macera uma das principais representações da Comicidade Feminina da atualidade brasileira. E essa representação alcança o máximo de sua potência política no encontro Mundial de Comicidade organizado pela própria Andrea e que já se anuncia para acontecer em outra edição em 2017. Aguardemos e torcemos para que realmente aconteça: bom para todos nós!


William Costa Lima


Curador do Sítio Cultural Alsácia

Sementeira e a leveza de um poético e brincante teatro infantil

Tem uma sinergia acontecendo no Sítio Cultural Alsácia durante o friozinho desse junho de 2016.  Nosso espaço, que ainda transita pelos seus primeiros dois anos de plantio, está recebendo um desses grandes pequenos acontecimentos: o espetáculo “Sementeira”, uma junção do Coletivo Garagem (Ribeirão Pires) e do coletivo Ponto de Fiandeiras (Santo André). E parece que uma semente realmente foi plantada por aqui.

A estética e as opções por elementos como brinquedos e brincadeiras nos coloca de maneira suave e sem didatismos a importância de testarmos a nossa capacidade de mantermos contato com o externo sem o intermédio de meios tecnológicos. Logo no início do espetáculo, um jogo vivaz relembra-nos que nosso corpo humano tende a produzir através de atos inatos: sons, movimentos e sensações. Nos é dado a chave central da história quando um fio elétrico se rompe e os narradores anunciam, sem grandes alardes, que aquelas histórias transcorrem em um espaço/tempo onde não haverá luz elétrica e logo assim não haverá televisão, computadores, celulares e as pessoas irão parar e se ouvir. A partir daí, assistimos um desenrolar poético sobre a constituição de um sujeito a partir de suas memórias de infância produzidas pelas experiências do encontro sem a mediação das tecnologias. E não só a constituição de um sujeito e sim de vários sujeitos. Pois são muitos os episódios de infância que geram empatia na plateia (que sorri e mareja os olhos) nos trazendo um híbrido movimento de sensações capaz de transitar entre as memórias boas e ruins que colhemos durante nossas infâncias.

O que vemos na direção do espetáculo não é um objetivo intencional que caminha a fábula rumo a alguma moral da história e sim a transição do real para o imaginário: a simplicidade do brinquedo nos coloca em extensão com o mundo. Em seguida esse mesmo brinquedo nos leva ao ato de brincar com alguém, de fazer amigos. E por fim, o brincar ganha regras espontâneas e torna-se o jogo vivo. Mas esse jogo logo se dilui e vira fábula. Porque em se tratando de criança, alguém pode não avisar que saiu da brincadeira de esconde-esconde e deixar o amiguinho feito bobo lhe procurando por horas. Não seria assim tão parecido com o jogo da vida? Ou nunca alguém lhe abandonou no jogo da vida? Quantas vezes no jogo de adultos não procuramos por quem nem se quer se escondeu ne nós?

Procuras aparentemente superficiais ganham profundidade ao evocar imagens como a de um caminhão de mudança indo e levando o amiguinho que nunca mais veremos. Ou ainda a de uma criança que, após sofrer injustiças na escola e ser impedida de participar de uma festa por não ter o dinheiro da fantasia, tenta lidar com a consequência do rancor cuspindo nos caderninhos dos amiguinhos. Mesmo que de maneira equivocada, alguém diz que o ódio é também um sentimento a ser sentido e lidar com os sentimentos passa a ser a grande questão que fica aos presentes desse efêmero encontro de uma manhã de domingo. A grande questão que permeia as oito cenas do espetáculo são os movimentos em torno dos diversos sentidos de um ser humano: do paladar ao medo, do ódio ao amor. Cenas que são quadros que, com a mesma facilidade, se armam e se desarmam diante de nossos olhos sem nos causar estranhezas estéticas. Histórias fragmentadas que não falam nostalgicamente de ciclos e experiências e, sim, colocam o lugar do sentir mais no lugar imaginário e menos no lugar das ações, trazendo para nossas crianças a reflexão de que as ações são mediadas por longos e longos pensamentos. Logo assim: está liberado sentir ódio, desde que suas ações não se movam pelo ódio. Essa experiência do ódio pode ser vivida e extravasada em outra fábula: talvez na divertida cena em um ator é um Samurai e picota um grande dragão imaginário. É realmente um espaço lúdico perfeito para extravasarmos o ódio. Foi nesse momento em que o meu lado adulto pensou em se matricular em alguma luta que tenha um saco de pancadas envolvido em sua técnica.

Não podemos deixar passar desapercebido a construção desses enérgicos atores/narradores. Em cada fala dita, em cada movimento escolhido, percebe-se a seriedade e o respeito que esses atores tomam pelos temas da infância e pelo próprio teatro. Sem o corpo denso e tão treinado desses excelentes coletivos, esse encanto de encontro e essas tantas proposições não seriam possíveis de serem transmitidas. Nos despedimos por aqui, desejando que a carroça imaginária desses sensíveis e inteligentes artistas aportem por todos os lugares e pessoas que precisem enrijecer o músculo da imaginação. E que o nosso Sítio Cultural Alsácia tenha mais manhãs de sorte com esta que estamos tendo durante o friozinho dos domingos de junho de 2016.

William Costa Lima

Curador do Sítio Cultural Alsácia

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